Carlos Matuck

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TEXTOS

DE GRAFITEIRO A PINTOR DO ORIENTE

 

O espírito inquieto e observador de Carlos Matuck o levou, desde criança, a seguir os irmãos famosos pelos caminhos das artes plásticas. Mas ele foi além e deu aos desenhos, caricaturas, ilustrações, pinturas e graffitis uma nova dinâmica, com ingredientes orientais e uma produção menos comercial.

 

Em maio, ele inaugura uma nova exposição de seu trabalho. Desta feita, serão obras desenhadas, recortadas e pintadas em chapas de madeira. A matéria-prima são as máscaras, usadas desde a juventude, quando grafitava muros e paredes. O ateliê, impecável, tem espalhados pelas mesas os desenhos em papel cartão de São Paulo e carros antigos. Nas paredes, suas pinturas feitas com tinta acrílica revelam a paixão pela China, traduzida em motivos e ideogramas orientais.

 

Enquanto conversamos, Carlos Matuck, 46, trabalha manejando com técnica e precisão o estilete. São produções artísticas delicadas, cheias de contornos e detalhes, que serão recortadas, usadas como moldes em finas placas de MDF (Medium Density Fiberboard) e pintadas com pistola ou spray. “O fusca é imbatível, vendo todos os que faço”, declara apontando para o carro azul desenhado em perspectiva frontal[1].

 

A carreira de Matuck deslanchou sem que ele fizesse muito esforço para que isso acontecesse. “Eu sou muito mal acostumado, nunca fui atrás das coisas, sempre vieram me chamar”, ele conta. Os irmãos Artur e Rubens, artistas plásticos, foram fundamentais para que Carlos, o caçula, mergulhasse no mundo das artes sem precisar se decidir por isso. “Era uma época bacana do mundo, anos 60, e minha casa vivia cheia de gente. Os amigos do Artur eram o Chico e o Paulo Caruso [cartunistas], seus colegas de classe; o Luiz Tatit [músico e professor de literatura da USP] era muito amigo do Rubens, eles estudavam juntos e a família Tatit morava na mesma rua, a Fradique Coutinho”.

 

O ateliê de Matuck tem centenas de desenhos em papel, madeira, tecido e outros suportes, mas ainda é apenas uma parte de tudo que já produziu. Ele cresceu vendo Artur escrever e representar, ensaiando peças de teatro: “Em 1968, Artur, Paulo e Chico ganharam um concurso de teatro de bairro com uma peça escrita por Artur e produzida pelos três”. Artur foi um dos primeiros no Brasil a fazer vídeoarte e a mexer com arte postal e xerox, famosas no começo dos anos 70. Participou de várias Bienais e desenvolveu trabalhos artísticos com sinal contrário ao copyright. Hoje é professor da ECA – USP e é reconhecido como um importante pesquisador de novas mídias.

 

O irmão Rubens exerceu influência ainda mais forte em Matuck. “Quando eu me dei por gente, o Rubens já desenhava, eu comecei a desenhar como que por osmose”. Quase todas as noites ele acompanhava o irmão mais velho ao Jornal da Tarde, onde este trabalhava como ilustrador e caricaturista. “Era uma farra pra mim. Eu ficava na sala dos ilustradores, pedia pastas do Pelé, do Garrincha, Sartre, Kafka, e ficava olhando as fotos e desenhando.”

As máscaras fazem parte da vida de Matuck desde 1978, quando conheceu – no ateliê de Rubens, é claro –, Alex Vallauri, o maior grafiteiro de todos os tempos. “Ele começou a fazer uns moldes vazados e pichar na rua aquela famosa bota”. Com ele, Matuck descobriu seu caminho. “É difícil você ser você, ter seu trabalho, sua característica, assumir suas coisas. Acho que eu consegui isso com o graffiti”.

 

Em 1982, eles pintaram toda a marquise do MAM, o que lhes rendeu uma matéria no jornal O Estado de São Paulo. Daí para a fama foi um passo: convite aceito, a exposição na Galeria Fotóptica com o parceiro Waldemar Zaidler foi elogiada em reportagem de duas páginas na revista Veja. Produziram então um audiovisual, com música de Paulo Tatit e Hélio Ziskind, e fotografias de João Paulo Capobianco, que documentava os graffitis espalhados pela cidade, como o mural do Ibirapuera e o do antigo teatro Lira Paulistana, na Praça Benedito Calixto.

 

O sucesso do documentário levou seus autores para as galerias São Paulo e Thomas Cohn – na primeira, com a participação de Vallauri[2]. Em 1985, foram convidados para participar da Bienal. “Foi aí que o Vallauri fez a ‘Festa da Casa da Rainha do Frango Assado’, que foi o trabalho de graffiti mais famoso do Brasil”, conta Matuck.

 

Mas o jovem grafiteiro não soube explorar comercialmente as portas que as exposições nessas galerias lhe abriram. “Eu nunca fui com uma pasta de trabalho numa galeria na minha vida, e pelo jeito nem vou. Nunca foi muito legal a minha relação com galeria, não”. Para ele, o graffiti não tinha venda. Prestavam-se, fundamentalmente, a mostrar um trabalho radical, contemporâneo. No entanto, a visão de Matuck desse trabalho, mais relacionada com a produção de murais e de arte na rua não era transmitida: “Não chegava nem a ser uma performance, porque estávamos todos bonitinhos, não acontecia nada no dia, as pessoas entravam pra olhar a parede e iam embora, não tinha o espírito de pichar na rua”.

 

Atualmente, a ponte de Matuck com o mundo são os recortes, que perpetuam o contato com o circuito comercial das artes. É sua opção realizar um trabalho completamente voltado para a produção artística, como reconhece o jornalista e amigo de muitos anos Sérgio de Carvalho: “Ele podia ganhar muito dinheiro se trabalhasse para o mercado publicitário, mas quer sobreviver da arte, daquilo que produz, sem subordinar essa expressão ao comércio”. Matuck vende suas obras a quem o procura, em geral, amigos e clientes antigos ou indicações deles. Segundo o artista, a comercialização de seu trabalho “é um desastre”.

 

Os recortes constituíram-se como alternativa para a ilustração de capas de livros, atividade que teve início a partir de um convite de Luiz Schwarcz, então editor da Brasiliense. Durante mais de dez anos, Matuck trabalhou como ilustrador na Brasiliense, Companhia das Letras, Editora Globo, Círculo do Livro e em revistas como Playboy e Veja.

 

Em seus quadros, o artista retrata locais de São Paulo antigo, como o Anhangabaú e o Teatro Municipal. Neles, as bicicletas, selos e escritos curtos com caligrafia chinesa estão sempre presentes. Em 1994, Matuck viajou para a China e voltou deslumbrado. “A pintura tem, para os chineses, uma profunda integração com a poesia. Eles diziam que um poema é uma pintura invisível, uma pintura é um poema visível”.

 

Sua maior frustração é não ter conseguido aprender chinês. “Tentei estudar, mas é dificílimo. Eu teria que dedicar muito tempo a isso e reduzir muito minha produção.” Sorte dos apreciadores da arte, que podem continuar a usufruir de seu talento.

 

Thais Sauaya Pereira

janeiro de 2005 

 

[1] A autora se refere aos Recortes Damar, realizados em parceria com o artista Júlio Barreto. Podem ser vistos em www.damar.art.br

[2] Na verdade, Vallauri foi convidado a expor na Galeria São Paulo e chamou Matuck e Zaidler para uma exposição conjunta.