TEXTOS

O livro dos Recortes

            Em toda parte, os recortes: papéis cortados, a borracha recortada dos carimbos, pinturas que se fazem com a tinta passando através de recortes no cartão, figuras recortadas na madeira, até as janelas como recortes.

           

            E mesmo das imagens que essas técnicas produzem, seria o caso de dizer que elas constituem um peculiar álbum de recortes: de retratos de gente há muito desparecida, famosos e anônimos, por fotógrafos célebres ou por departamentos de polícia e imigração; de viagens ao passado, com os navios, trens, aviões, carros, balões e bicicletas que então se usavam; de paisagens urbanas que já não mais existem, a não ser em livros e velhos cartões postais; dos selos, estampas e carimbos que com a caligrafia dos nomes e endereços costumavam compor as cartas; de vinhetas e figuras gravadas em metal e madeira que serviam como ilustração na imprensa e publicidade do século XIX, e nos catálogos de lojas de departamento antigos; e enfim, de personagens favoritos das histórias em quadrinhos. É quase como se o trabalho de Carlos Matuck fosse a contínua compilação de um infinito livro de recortes.

           

            Não deixa de ser apropriado, então, que boa parte dele só exista como um álbum de fotografias: as pichações realizadas nas ruas de São Paulo de 1979 a 1985. A partir do encontro com Alex Vallauri, os carimbos e figuras de HQ que ambos usavam em seus trabalhos passaram a ser aplicados através de máscaras nas paredes das ruas. Inicialmente, os espaços da cidade eram marcados com imagens de leitura rápida, jogando com sua variação (espacial, cromática, textural); depois, as imagens passaram a se combinar em personagens e cenas; por fim, cenas inteiras eram antes concebidas, criando-se as máscaras necessárias para a sua realização.   

           

            Se nas últimas pichações o processo de criação tornava-se cada vez mais similar ao de um mural, parecia ser a direção a seguir. Das ruas, as máscaras passaram a ser aplicadas nas paredes de galerias, num vasto painel na XVIII Bienal de São Paulo (em 1985), e em outras instituições. Poder se demorar mais na realização desses murais propiciava a emergência de questões propriamente pictóricas que cabia investigar mais longamente em telas; ao mesmo tempo, o uso continuado das máscaras sugeria insistentemente que se experimentasse os recortes em outros materiais, e mais ainda, que os próprios recortes passasem a fazer parte dos trabalhos, integrando-se ou não à pintura da qual eram antes só o instrumento. Uma variedade de combinações possíveis é então iniciada em telas e painéis: os recortes das máscaras, em cartão ou em madeira, eram colados na superfície, ou montados a uma certa distância dela, ou ainda, pintados ou não, eram apenas emoldurados. Essas experiências prefiguravam um salto para o tridimensional que acabaria se realizando nas obras mais recentes de Matuck, verdadeiras assemblagens que incorporam, além dos procedimentos anteriores, toda uma gama de objets trouvées cujas peculiaridades iconográficas, formais e materiais os integram ao conjunto do trabalho. Exemplos são as duas obras instaladas na Livraria Cultura do Shopping Villa-Lobos (imagem 01) (imagem 02) em abril de 2001, e esta sala na Casa das Rosas ("O Escritor à janela" e "O Escritor em sua carta"). 

 

Marcos Maffei

janeiro de 2002

 

Versão original  do texto do catálogo da exposição "Rendam-se Terráqueos",

realizada na Casa das Rosas.