TEXTOS

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TEXTO PARA O CATÁLOGO DA

XVIII BIENAL INTERNACIONAL DE SÃO PAULO

 

 

            À medida que iam saindo da rua e se fixando em interiores, os graffiti sofriam modificações técnicas e conceituais; neste processo, explicitaram-se elementos, antes subentendidos, que me fizeram repensar a pichação. Dos elementos, o suporte tem destaque: a grafitagem que compõe a cena da cidade, estendendo-a, difere materialmente da pichação que, na clausura, elabora interiores; rugosidades irregulares, formatos disparatados, etc., dão sentido fortuito aos graffiti, mas é a escala do suporte externo, não menos casual, que o distingue do interno, cuja uniformidade material e dimensional suscita, no pichador, o desejo de projetar. Os graffiti também contrastam quanto à situação: na composição da cena urbana, afiguram-se circunstâncias em que o acaso, do momento e lugar, das intervenções participativas ou repressivas das pessoas, interfere intensamente na produção, evidenciando as limitações de qualquer projeto. Na pichação externa, o aleatório opera, quanto à recepção, como abertura: enquanto nos interiores ela é predeterminada, pois se pressupõe espectador contemplativo na cena e por ela diferenciado, na cidade é dinâmica; atento ou distraído, lento ou apressado, diversamente informado, o receptor é o passante, figura da indeterminação, que, embora visado, não se deixa preestabelecer. Também a técnica se divide segundo essas diferenças; não se conclui daí que os graffiti diretos, feitos a mão livre, restrinjam-se ao exterior e os indiretos, em que o jato de spray é dirigido pelo estêncil, ou máscara, subordinam-se ao interior: as técnicas não se compartimentam, ainda que nelas se possa distinguir o uso simples do complexo. Tenho preferido para a cena interna - museu, galeria, loja, residência - o uso complexo do estêncil na produção de imagens pormenorizadas. Considerando o acaso, reservo para a pichação urbana o uso simplificado do estêncil e a ação direta; em circunstâncias estáveis, porém, meus graffiti seriam complexos, sem prejuízo para o sentido de intervenção. É nas cenas internas que a técnica opera de modo complexo, pois reúne procedimentos diversos, em que repenso minha produção anterior. Com isso, nos graffiti, também de exteriores, a repetição de motivos repropõe as iterações de meus trabalhos com carimbos; o sintetismo dos traços retoma, em suas áreas chapadas e contornos nítidos, o despojamento das histórias em quadrinhos; o corte dos estênceis repensa os recortes de minhas colagens; as texturas produzidas a mão livre com jatos de spray ressituam as de minha pesquisa com papéis marmorizados. Também na iconografia, os graffiti de ambas as cenas recolocam imagens anteriores, como retratos, personagens de histórias em quadrinhos, figuras de carimbos e vinhetas, etc. No que concerne à composição, todavia, os graffiti distinguem-se: enquanto nos externos os elementos figurativos pipocavam em justaposições, tantas vezes aleatórias, nos internos, que são projetados, articulam-se por seqüência ou significado. No que se refere à pragmática, as imagens, tanto as sujeitas a imprevistos, quanto as projetadas para a cena interior, operam, além dos efeitos de composição, os suspensivos de humor.

 

Leon Kossovitch

 

A partir de conversas com Carlos Matuck e Kenji Ota

Versão original do texto publicado em "18ª Bienal Internacional de São Paulo -

Catálogo Geral", pág. 218 - 1985

Veja série completa: 1985